21 de setembro de 2017

A PROPÓSITO (3)

A propósito, penso que Portugal se devia preocupar e muito com o que está a acontecer em Espanha com a Catalunha, não para tomar partido, mas, principalmente, para ser um conselheiro que apelasse com vigor ao diálogo e à conciliação. Portugal não pode nem deve esquecer que tudo o que aconteça de bom ou de mau, principalmente de mau, em Espanha, se reflectirá em Portugal. Porquê? Basta não esquecer que a única fronteira terrestre de Portugal, é a fronteira com a Espanha.Tudo o que entra e sai de Portugal, via terrestre, passa pela Espanha. Claro que há a via marítima, mas que é da nossa marinha mercante? Claro que há a via aérea, mas que é da nossa TAP? E, a propósito, a quem se deve isso?

20 de setembro de 2017

ESCRITOS (11)

Conto destinado a ser publicado numa improvável segunda edição do meu livro, mencionado em Escritos (2):  Contos do (meu) entardecer.

                        AS "JÓIAS DA COROA"
"Conheço-te de ginjeira,  meu menino!"  Foi o dito de uma jovem
que   dias  passou  por  mim  na  rua,  ao  rapagão que a acompanhava.
"Conheço-te de ginjeira!"   Recordei  a frase,   a  utilizara,  não  sei  
quanto  tempo,  e  fiquei  surpreendido  ao  ouvi-la. Dizer que se conhece
alguém de ginjeira,  é uma maneira  informal  de afirmar que se sabe,  ou
se pensa saber,  muito bem, do que esse alguém é capaz,  de  quais são as
suas manhas.  Assim  interpretava  a  frase.  Onde  a  teria  ido  buscar,  a
pequena? Ela era mais do passado que do presente.  Calculava que talvez
aos avós,  mais do  que ao pai ou à mãe.  Aquele jovem  casal, disse para
comigo,  algo divertido,  devia pertencer a famílias  tradicionais, do  tipo
antigo,   que  lhes transmitira hábitos de alguma compostura, de tento  na
língua, que ainda os condicionava,  ou ela, apimentando a frase, não teria
dito,  "meu menino",  mas muito simplesmente,  "meu sacana",  e  ele em
em vez de ter ficado calado, de ter engolido o remoque, ter-lhe-ia atirado
na  passada,  "Vai-te foder!"  Ambos falando  em registo  de  voz normal,
como em conversa costumeira e amena, indiferentes a quem  com eles se
cruzasse e os ouvisse.
Mas,  se recordei o fugaz encontro,  ou desencontro, que aliás não
fora  nem uma coisa  nem outra,  pois não andava à procura deles,  não os
conhecia,  e não os vira,  embora olhasse para eles,  mas ouvira-a a ela, e,
talvez  por  isso  lhe  chamei jovem pela frescura da voz,  e a ele rapagão,
ou ela não o trataria,  chocarreira,  por menino,  se  o  recordava,  não era
tanto  pela  frase que,  desprevenidamente,  captara,  pela surpresa do seu
uso tão em  desuso,  mas mais pela palavra que a mesma continha,  e fora
ela que me alertara,  a tal "ginjeira",  causadora,  sem lógica aparente,  de
uma    catadupa    de    memórias      muito   esquecidas.  Deixei-as  vir,
comprazendo-me com elas.  
            Era   uma  garrafa  coberta  de  pó,  de  litro e meio, de boca larga
tapada por uma rolha de cortiça vedada com cera derretida.  Estava cheia
de um liquido escuro, esverdeado, e de pequenas folhas, e pés, e caroços,  
que viria,  a descobrir serem de ginja.  Encontrara-a  escondida  atrás das
garrafas que enchiam a  garrafeira que herdara  do  meu  avô,  nome  algo
pomposo  dado à prateleira de cima de um armário de parede  cravado na
despensa  da  casa  onde  ele  vivia,  e que agora era minha, que na altura,
cheias,   uma  de  aguardente  vínico,  que o avô não engraçava com as
bagaceiras, e meia dúzia de vinho,  do  tinto,  tinto  carrascão, – o branco
era para as senhoras,  o branco e o abafado,  na altura do  arroz  doce,  do
leite  de  creme, do pão-de-ló – que ele próprio  engarrafava, chupando-o
de uma pipa que todos anos o visitava aos ombros de uns "galegos" que a
poisavam na cozinha,  com desenvolto  cuidado, em dois robustos bancos
de boa  madeira,  virados  de  pernas  para  o ar, fortes e feios, grosseiros,
difíceis  hoje  de  encontrar  dado  que  a  escassa  procura não estimula a
oferta,  nos  quais  ainda agora a família se sentava para tomar o pequeno
almoço,  cuidado que lhes valia,  aos "galegos",  o bónus  de  uma carcaça
com chouriço, e um copázio do tinto, da pipa do ano anterior, como já era
da  praxe.   Esses   "galegos",   homens   possantes,   cordas   aos  ombros,
andavam aos pares,  e paravam nas  esquinas das ruas principais,  à espera
de serem contratados para trabalhos de força  bruta,  como  o  vergar  com
barris de vinho ou vasilhas de azeite, ou alombar com os móveis de algum
casalinho que tendo juntado os trapinhos,  alugara o 3ª ou 4ª andar  de  um
prédio sem elevador,  como  se  na  época  fosse  possível  o luxo de haver        
prédios com elevador, tivessem eles os andares  que tivessem.                
           A garrafa tinha um rótulo, mas tão esborratado que só se conseguia
ler,  mal,  a palavra infusão,  mas não de quê,  nem desde quando ela jazia
naquela  prisão  de  vidro.  A  solução  do  mistério  viria encontrá-la num
livrinho  de  capa  preta,    de  oleado,    perdido  no  espólio   livresco   do
avô, no  meio de dezenas de pequenas brochuras,  um livrinho de receitas,
escritas   por   ele,   que  abria  com  um  "Bacalhau à Bruxa",  ao  qual  se
seguiam,  uma "Galinha de Cabidela",  um "Pato Recheado", uma "Língua
Afiambrada",  e por aí fora até chegar aos bolos,  aos  doces  e  aos pudins,
para finalmente entrar nos licores, e lá estava ela,  a  receita  do  "Licor de
Pés, Folhas, e Caroços de  Ginja".  E  dizia  assim,  sem  tirar uma  vírgula
ou  mudar  uma  palavra:  «Põe-se de infusão em boa aguardente de vinho,
pés, folhas e alguns caroços de ginjas, por um período não inferior a 8 dias,
agitando dias  a  dias.  Os pés e as folhas devem ser metade em volume da
aguardente e os caroços 8 a 10 porcada litro de aguardente. Para se  fazer
o licor,  prepara-se  uma  calda  fraca  na  proporção  de  200  gramas  de
açúcar por ½ litro  de aguardente e a água para a calda é na proporção de
metade  do  peso  do  açúcar.   Deixa-se   esfriar   por   completo   a  calda,
junta-se  à  infusão  e  depois filtra-se  uma,  duas,  ou mais vezes, até ficar
bem transparente, e bebe-se Segui  à  risca  as  orientações  da  receita  e
orgulhava-me dizer  que  produzira  um  verdadeiro  néctar,  assim  como
lamentava  revelar que  nunca  mais  conseguira obter o mesmo resultado
de   excelência   nas   vezes,   embora   poucas,   que,   posteriormente,  o
tentei.  Quanto  às  ginjas,  despojadas  das  suas  folhas,  e  dos  seus pés
e caroços,  raramente  apetitosas  para  serem  comidas  ao natural, como
vieram ao mundo,  mas não descartadas,  o seu destino era,  fatalmente, a
panela para o doce ou a garrafa para a ginjinha.   
            O  armário  da  despensa  tinha  a  largura  da mesma, um metro e 
vinte,mas não a sua altura,pois o prédio era antigo,do primeiro quartel do
século XX, e todos os compartimentos tinham um pé alto de mais de três
metros.  Mesmo assim para chegar à prateleira das garrafas,  só em bicos
de pés e esticando  bem o braço,  o que queria dizer  que  para  chegar ao
fundo da garrafeira só  utilizando um  banco alto,  um dos da cozinha, ou
então o escadote. Já para as duas prateleiras intermédias,  das mercearias,
não era necessária qualquer ginástica,  mas para a parte de baixo,  onde o
vão  era  ocupado por um  muito avantajado  baú,  de  madeira  bem  rija,
reforçada com cintas metálicas,  tinha  que se dobrar a  espinha ou flectir  
as  pernas.   Ao  dispor-me  a  devassá-lo,   lembrei-me,  a  propósito  ou
despropósito,  do  tesouro  da  "Ilha  do  Tesouro".  Mais  a  despropósito,
diga-se   a   verdade,   pois,   não  estava  numa  ilha,   o  avô  não  era  o
malvado capitão Flint, nem um assustador pirata com perna de pau, e eu
não  era  um  Jim  Hawkins,  e o baú não estava enterrado,  estava bem à
vista  e  não  guardava  barras  de  ouro.  Mas  o  seu recheio revelara-se
fascinante pela variedade,  pelo insólito,  também pela  beleza de alguns
objectos que o enchiam:  um corno,  talvez  de  boi, talvez de vaca, vá lá
saber-se,   quatro   chavelhos   de   cabra,   que   podiam   ser   de   bode,
ferramentas  várias  (martelos,  serras,  alicates,  limas,),  um  torno,  um
trabalhado manipanço africano,  talvez de feiticeiro,  e também uma rija
moca de pau preto e um chicote  entrançado, que   teriam  pertencido  ao
dito ou ao chefe da tribo, três sacos de papel com selos usados, nacionais
e  estrangeiros,  e  dois  sacos  de  pano,  um  com  moedas  da realeza  e
outro  com  moedas  da  1ª República, uma arrastadeira e um penico alto,
de esmalte branco, uma meia dúzia de bengalas, com destaque para duas
com castão de prata, uma com castão de marfim,  e outra,  acredite-se ou
não, de pila de boi, e, finalmente, as "jóias da coroa", assim as considerei,
que  encimavam  o recheio:  uma  pele  de  raposa  e  uma pele de cavalo.

A da raposa,  preta com laivos cinzentos,  era de  uma macieza  hipnótica  
pois era difícil deixar de a acariciar, a do cavalo de uma rara cor castanha
axadrezada  devido às ténues linhas  mais escuras que a cruzavam.  Todos
conservei,   religiosamente,   de   nada    me   desfiz,   não  por  descabida
superstição,   mas   por   respeito  e  por  que,   escondidamente,   sou um
sentimental.  O avô tinha-os  guardado,  razões teria,  e  isso bastava-me,
até por que uma delas,  dessas razões ou motivos,  seria, de certo, o neto,
a  minha  pessoa.  As  ferramentas  e  o  torno,  toscos  e  ferrugentos, e a
arrastadeira e o penico,  com o esmalte  ainda  imaculado  apesar  do  uso
que já teriam tido e que poderiam voltar  a  ter, que  o  diabo  fosse  cego,
surdo e mudo, continuaram no baú. O manipanço, a moca, o chicote, e as
bengalas,  dignificavam-me  o  escritório  com  a sua presença invulgar e
cativante.  Os  selos  e  as  moedas  foram  a  base  de  duas colecções, na
minha modéstia, modestas, que ocasionalmente ia ampliando. Da pele de
raposa  e  da  pele  de  cavalo,  as "jóias da coroa" como lhes chamei, dei-
lhes bom uso. A saber:
                                              à pele de raposa

Tinha uma samarra, de fazenda preta e pesada, que mandara fazer uma 
alfaiataria,  cujo  dono,  o senhor Adelino,  um  homem  de  fraca
presença, de sorriso triste, mas olhar vivo, e gesto respeitador, mas não 
subserviente,  era um velho  conhecido do avô.  Era de esquina,  com uma
  montra onde reinava um manequim sempre vestido a preceito, conforme
  a  época,  uma  porta  envidraçada  onde  se  lia "Alfaiataria Estrela", que
  albergava  no  seu  interior,   não  muito  espaçoso,  mas  bem  arrumado,
  dividido  por  um  pequeno  balcão,  além  do  senhor  Adelino, mais três
  empregados, um deles uma jovem, não muito jovem, morena, baixinha e
  de  olhar  espantado,  que  quando  o  patrão  não estava nos recebia com
  um sorriso meio envergonhado, nos convidava a sentar, e nos dizia que o
  senhor Adelino  tivera  que sair,  mas já não demorava muito.  Era lá que
  mandávamos   fazer  o  que   hoje  se  compra    feito:  casacos,  calças,  
  sobretudos  e  até  camisas.  O  casacão  chegara  atrasado,  já com tempo
  ameno, e ainda só o vestira uma vez, para me ver ao espelho, e confirmar
  o óbvio,  que lhe faltava qualquer coisa,  nada mais nada menos  que uma
  pelezinha na gola.  O  bom do senhor Adelino  já me tinha avisado que as
  samarras,  para  autenticamente  o  serem,  deviam  ter  uma  gola de pele.
  A descoberta da pele de raposa no baú do avô veio resolver a falta.

Era   domingo,   o   céu   estava  azul,   o  sol   brilhava,   mas   a
temperatura  era  baixa.  Afinal  estava-se  em Janeiro.  Era o dia do meu
casamento,  marcado para o meio-dia,  no Registo Civil, e já passava das
onze e meia. Banho tomado, barba feita, bem escanhoada, penteado com
um toque de fixador, uma borrifadela de colónia, camisa e gravata novas,
fato feito para o momento,   meias e sapatos  a condizer,  também  novos,
também novos,  samarra pelos ombros,  como uma capa,  com a raposa a
acariciar-me  o  pescoço,   machão,  ou  desejando  parecê-lo,   pus-me  a
caminho,  a  pé,  não  querendo  ter  pressa,  aspirando  a  longos haustos,
acalmando as batidas do coração.  Não é todos os dias que um homem se
casa. Já lá estavam, no passeio, à porta do Registo, ela, a noiva, alta, bem
torneada,  apetecível,  e  jurava  que virginal,  vestida de pérola,  com um
chapelinho a condizer,  e eles os padrinhos,  que eram também os  únicos
convidados, assim o quisemos,  os meus, uma prima e o meu irmão,  e os
dela, a irmã e o irmão, ela para o mole e ele para o duro. Olhavam-me os
quatro com um certo ar de ansiedade e dúvida que nos meus logo  passou 
a divertido e nos dela,  que não  me tinham  em grande conta  como eu os
não tinha a eles, a reprovador.Todos tinham chegado de carro e a horas, e  
eu,  além  de  atrasado,  vinha  a   e  de  samarra aos ombros. A pé e de 
samarra  aos  ombros!?  Para  um  casamento,  e  ainda  por  cima  o  dela
comigo?!  Mas  a  ela, confiante, os olhos brilharam e um sorriso aflorou-
lhe aos lábios, perdoando a samarra e aquecendo-me o coração.
            Entrámos  apaixonados  e  saímos  casados e apaixonados, e assim
assim continuamos, apaixonados e casados.
– Tens a pele tão macia! – murmurou ele, acariciando-lhe o seio. 
 – Para ti! – suspirou ela, aconchegando-se a ele.  

                                                 à pele de cavalo
Rectangular,  dois  metros e vinte  por  quatro e dez,  um quarto de
passagem  com  três  portas,  e  uma  janela  a  dar  para  a  rua, um quarto
entalado  entre  outros  dois – o  da  porta  da  esquerda,  que  tinha  sido o
quarto de vestir, contíguo, pois, ao quarto de cama dos avós, e veio a ser o
quarto  da  minha  filha,  o  da  porta da direita,  independente, que fora do
meu pai, depois meu, e veio a ser do meu filho – em que a porta de entrada,
fronteira à janela, dava para o corredor e fazia ângulo recto com a porta da
rua.  Era  o  escritório  do  avô,  pois  era   que  ele  tinha a sua secretária
acolitada  por  uma  cadeira  de  braços,  rotativa,  um armário com os seus
livros  e  dossiês,   e  uma  dominadora  poltrona  em  forma  de  ferradura,
forrada de um qualquer tecido de cor indefinida, onde depois de almoço, já


  bem aviado, gostava de dormir uma soneca. Passamos depois a chamar-lhe
  sala quando nos desfizemos da secretária, da cadeira rotativa e do armário,
  substituídos   por   duas   escrivaninhas,   uma   estante,   e  duas   cadeiras
  estofadas, mas mantendo a poltrona.  Ai, a poltrona! Quando chegou a sua
  vez,   houve   luta   rija,   todos  contra  e  todos  a  favor.   Assim  mesmo!
  Gostávamos  dela,  da  sua  presença,  porque  nela  dormíamos  os  nossos
  sonos,   sonhávamos   as   nossas   fantasias,   descansávamos   dos  nossos
  cansaços,   pensávamos  os  nossos   problemas,   chorávamos   os   nossos
  desgostos,   mas   também   a   detestávamos,   porque,   agora,   decrépita,
  manchada, ressequida, desengonçada, as molas caídas, lassas, o seu estado
  resultava  dos   muitos   abusos   que   sofrera,   e   isso  envergonhava-nos.
  Salvou-a  a  súbita  e  providencial  lembrança da  pele  de  cavalo, que nos
  evitou o desgosto  de a entregarmos  ao sucateiro ou ao ferro-velho. Sim, a
  a pele  de cavalo,  no seu castanho axadrezado,  lá estava,  no baú, solitária,
  depois de abandonada pela sua compincha,  a pele de raposa,  que se unira
  a uma samarra, à espera, desesperançada, da sua vez.       
              Foram  dois  jovens desenvoltos  e  com bom ar, que, por contraste, 
  faziam  lembrar  os galegos  do  passado, que vieram buscar  a poltrona e a
  pele. Em vez da força bruta eles tinham o jeito  e  a  energia, e  levaram-na
  a contento, mas o que fariam eles se tivessem  de  se  confrontar  com uma
  daquelas  pipas  de  vinho  que  os  galegos  carregavam  às  costas, escada
  acima,  para  a  poisar,  com  toda  a  certeza  e firmeza, em dois bancos de
  madeira  virados  de  pernas  para  o  ar?   Não   lhes   desejava  tal  missão
  impossível,  aliás  bem  improvável. Quem é que,  no presente, encomenda
  um  barril  de vinho  tinto carrascão para o ir bebendo durante o ano, como
  fazia  o  avô?   Foram  também  eles  que, passadas  algumas  semanas, nos
  devolveram a poltrona  já acasalada  com  a pele do  cavalo  castanho. Mas
  dessa  vez  acompanhados pelo  patrão,  o  senhor Venâncio estucador,  um
  sujeito  de   meia   idade,   surpreendentemente  arrumadinho,  limpinho  e
  penteadinho,  e  muito  gesticulador.  Não, não  vinha  receber,  ainda  não
  fizera as contas,  depois mandava a  factura. É que a  pele  mostrara-se um
  bocado  curta e  ele tivera  de fazer  uns  acrescentos  nas costuras pelo que  
  era conveniente, se houvesse miúdos, que eles não  dessem pulos em cima
  da poltrona.  Mais valia  prevenir que  remediar,  até  porque o remedeio…
  enfim,  era  melhor  evitá-lo.  Mas já não havia miúdos  e os graúdos,  não
  era seu  hábito  pular  em cima  das  poltronas  nem das  cadeiras,  embora
  alguns, se  não  todos, diga-se  a  verdade,  gostassem  por vezes deixar-se
  cair no assento que lhes estava mais ao rabo.                         
            A sua presença sempre tinha  sido  relevante, acolhedora, atraente, 
disputávamos o seu conforto,  mas depois da  sua  recauchutagem,  a pele
que lhe foi  vestida, bela,  sofisticada,  mas  fria,  e  a  debilidade  que  lhe 
foi diagnosticada, afastaram-nos dela. Já não era a nossa poltrona, que nos
acolhia, nos mimava,  nos aquecia,  e como diziam os meus  filhos,  já não
era a nossa amiga Poltrona,  mas sim a senhora dona Poltrona.  Por isso, a
pouco e pouco, só eu, quase,  como sempre um sentimental envergonhado,
teimava em  sentar-me nela, – para além de algum visitante ou  convidado   
de   mais    cerimónia,   que  fazíamos   questão   que   lhe   conhecesse   a  
imponência e a elegância que indubitavelmente tinha, – a ler jornal depois
do almoço ou a beber um whisky antes do jantar. E esquecemos, ou  antes,  
esqueci  a  sua  anunciada   debilidade.   E  um  dia,  é  certo  que  bastante
tempo passado, aconteceu.
            Era  um  sábado à  tarde,  o dia estava feioso, nenhum de nós saíra.
A  minha  mulher  sentara-se na  sala,  junto à janela, a ler, os meus filhos
estavam nos seus quartos,  e eu, de jornal na mão, depois de um digestivo
vai e vem no corredor,  porque  abusara  no  cozido  e no  tinto alentejano,  
fui  para a  poltrona e,  cedendo  à  moleza,  sentei-me  mais  pesadamente  
do que era habitual.  O ruído, rasgadamente lancinante e comprometedora-
mente   audível,   que   dela  saiu,  deixou-me  paralisado. A minha mulher
levantou  a  cabeça  e  os  meus  filhos  apareceram, de supetão, à espreita.
Olharam  os  três  para  mim,  primeiro  com alguma  apreensão, depois, já
cientes e em conluio, como se eu tivesse cometido alguma inconveniência
mal cheirosa,  e eu,  tolamente, olhei para eles como se a tivesse cometido.
A minha mulher bufou de riso, o meu filho, impertinente, levou a mão
ao nariz e a minha filha, provocadora como sempre, guinchou:
– Oh, pai!       
Indignado,  mas   conformado  depois com a malvadez divertida
deles, aderi à pantomina e,  abrindo  dramaticamente os braços,  rugi:
           – Não fui eu, foi o cavalo!                    
A  samarra  foi-me  roubada  na  euforia  e  confusão  daquela
louca noite europeia de  futebol, quando o Benfica, o glorioso Benfica
do passado, do tempo  do  fabuloso  Eusébio,  venceu  o  Real  Madrid
por   cinco   a   um.  Quanto  à  poltrona,  com  as  entranhas  rasgadas,
acabou por  ser  impingida ao estofador, ao melífluo senhor Venâncio,
por tuta-e-meia.