23 de agosto de 2017

BIBLIOTECA (5): a Despensa

É a Despensa, que não se dispensa por tudo aquilo que é próprio ter, e tem, e por tudo aquilo que, não sendo costume ter, também tem. Ou seja, ela tem tudo, o que uma despensa não dispensa, e mais alguma coisa. Deixando para trás, o tudo, indispensável, eis o, mais alguma coisa, que nos ocupa:

- Livros de Gastronomia:


Avillez, José: As melhores receitas do ano (1915)
Avillez José: Receitas em grande
Carmo, Isabel: Saber emagrecer
Courtine: As receitas de Simenon e Maigret
Goucha, Manuel Luís: À mesa
Montalbán, Manuel Vasquez: Las receitas de Carvalho
Rosa-Limpo, Bertha: O livro de Pantagruel
Silva, Alexandre: 14 pratos regionais
Viana, António Manuel Couto e Ceferino Carrera: Comeres de Lisboa (roteiro gastronómico)


- Uma Colecção de Conchas Marinhas (na minha opinião, excelente) a justificar os livros que a apoiam:
Dance, S. Peter: Conchas
Hayward, P., T. Nelson-Smith et C. Shields: Guide des bords de mer
Lawrence, Eleanor e Sue Harniess: Conchas marinhas
Lindner, Gert: Guide des coquillages marins
Macedo, Maria C. Consolado, M. I. C. Macedo e J. Pedro Borges: Conchas Marinhas de Portugal
Silva, José António e Gil Montalverne: Iniciação à colecção de conchas
Wye, Keneth R.: The encyclopedia of shells
 
- Outros livros:
Teles, Américo: Guia prático de preparação de algas marinhas
Portugal Natural


 

ESCRITOS (5) e (6)

A Literatura Policial Moderna
e
Para a História da Literatura Policial Portuguesa que um dia alguém há-de escrever 

Dois dossiês com textos sobre temas do mesmo universo literário, o do género policial. Assim sendo, bem ou mal, decidi juntá-los nesta peregrinação aos meus escritos. Versões sobre a literatura policia, em geral, não faltarão, mas quis dar a minha própria, além de explicar o porquê de lhe ter chamado moderna. A panorâmica sobre a literatura policial portuguesa, é modesto um contributo para quem lhe quiser fazer a história.
Cada um dos dossiês tem o seu texto de apresentação pelo que, para não sobrecarregar a exposição,  preparei uma súmula dos dois, para aqui a trascrever.

                                                                  INTRODUÇÃO

O género literário a que se convencionou chamar policial, assenta em histórias que obedecem, ou devem obedecer, a três exigências: ter crime, ter mistério, ter investigação. O crime pode ser de sangue ou não, um homicídio, um roubo, um rapto, uma chantagem, mas deverá ser sempre, incondicionalmente, enigmático, ter enigma,  ter mistério, ser misterioso e, assim, obrigar, sempre, a uma investigação exigente, para ser desvendado – quem o cometeu, como, quando, onde e porquê – a cargo da polícia oficial ou, na eventual ausência inicial desta, de um detective profissional privado, de um investigador amador, ou, apenas, de um diletante. A satisfação destas exigências que, independentemente do rigor e da imaginação e diversidade com que são tratadas, caracterizam o género, depende, naturalmente, do talento, da vontade e das intenções do escritor.
A tais histórias, ingleses e americanos chamam-lhes detective stories, mas conforme os temas abordados e o desenvolvimento que lhes é dado, também as designam por thrillers ou crime stories. Os franceses, mais despreocupados, designam-nas, simplesmente, policiers, embora tenham tido também a ideia peregrina de lhes chamar polares. Nós, portugueses, solidariamente latinos, optámos também, sensatamente, por chamar-lhes, policiais ou policiárias

Segundo consenso, mais ou menos alargado, a literatura policial nasceu em meados do século XIX, mais precisamente em 1841, com a publicação de um pequeno romance, The murders in the rue Morgue (1), protagonizado por um investigador  diletante, o francês Auguste Dupin, imaginado pelo escritor norte-americano, Edgar Allan Pöe, embora o seu desenvolvimento só se tenha verificado, vinte anos mais tarde, graças ao escritor francês, Émile Gaboriau, criador dos inspectores Tabaret e Lecoq, da Sûreté, e a sua verdadeira consolidação, maturidade e geral aceitação, a partir dos finais dos anos 80, ainda do século XIX, se deva ao britânico, Conan Doyle, genial criador do mítico detective privado Sherlock Holmes e do seu amigo e biógrafo dr. Watson.
Não esquecer, no entanto, que já antes do nascimento desta literatura policial, subordinada à investigação dedutiva do mistério e do crime, existiam, e continuaram a existir, histórias sobre casos de perfil policial, embora de contornos, características, e objectivos diferentes: as grandes tragédias, os dramas de “faca e alguidar”, os intrincados confrontos entre a maldade e a moralidade, o macabro e o terror, com o sobrenatural à mistura, pelo que, com inteira propriedade, adjectivamos de moderna, a literatura policial.
De tais histórias que em maior ou menor grau, influenciaram a literatura policial de que foram predecessoras, o justo destaque vai para o livro, Mémoires de Vidoq (1828), de Eugéne-François Vidoq (1775-1857), dado o impacto das suas revelações sobre o mundo do crime.
Vidoq, indivíduo de maus princípios, com uma juventude dedicada ao banditismo, em 1809, aos 34 anos, resolveu mudar de campo, não de carácter, ofereceu-se para informador da polícia, e tão profícua foi a sua acção que, dois anos depois, foi nomeado chefe da Sûreté que dirigiu até 1827, e depois de 1931 a 1843, e em 1845, já reformado, abriu a primeira agência privada de detectives do mundo. 
Tendo-se relacionado com vários escritores, o seu livro de memórias, e ele próprio, a sua personalidade e os seus conhecimentos, inspiraram, entre outros, Alexandre Dumas, Eugène Sue, Victor Hugo e, principalmente, Honorè de Balzac com quem, em 1822, travou relações de amizade. Tornou-se, assim, o Vautrin de Le Pére Goriot, mas foi ele também, mais tarde, o modelo do Jackal de Les Mohicanos de Paris, do Rocambole, simultaneamente, do foragido Jean Valjean e do polícia Javert, de Les Misérables, e ainda, porque não, do Arsène Lupin.
E para além de Vidocq e das suas memórias, indispensável é registar, também,  obras e autores tão significativos como: The Castle of Otranto (1764), de Horace Walpole (1717-1797); The Mysteries of Udolpho (1794), de Ann Radcliffe (1764-1823); Caleb Williams (1794), de William Godwin (1756-1836); Ambrósio, or the Monk (1795), de Matthew Gregory Lewis (1775-1818); Ormond or The Secret Witness (1799), de Charles Brockden Brown (1771-1810); Der Kaliber (1829), de Adolf Mullner (1774-1829); Pelham ou Les Aventures d'un Gentleman (1828) e Eugen Aram (1832), de Edward Bulwer Litton (1803-1873); Ferragus (1833), Le Père Goriot (1835) e Une Ténèbreuse Affaire (1841), de Honoré de Balzac (1799-1850; Mémoires du Diable (1837), de Frédéric Soulié; The Avenger (1838), de Thomas de Quincey; Jack Sheppard (1839), de William Harrison Ainsworth.

          Em Portugal, a literatura policial, sem tradição, existiu, embora sem grande destaque ou qualidade. Os seus antecedentes foram as más traduções, quase sempre do francês, dos contos e romances góticos, e depois, influenciados por tais textos, o teatro de horror e a novelística negra. As primeiras obras, com características que já faziam adivinhar a futura ficção policial, detectam-se à volta do início da segunda metade do século XIX. Exemplos disso são: os dramalhões, Os dois renegados e O homem da máscara negra, ambos de 1839, de Mendes Leal (1818-1886); os romances Paulo, o montanhês (1853) e O génio do mal (1856/57), de Arnaldo Gama (1828-1865); Mistérios de Lisboa (1851) e A mão do finado (1853), de Alfredo Possolo Hogan (1830-1865); a peça O castigo da vingança (1862) e os contos, O punhal de Rosaura e Os  canibais, (1866), A febre do jogo, A vestal, Honra antiga e J. Moreno (1867), de Álvaro Carvalhal (1844-1868); e, porque não, Mistérios de Lisboa (1853) e Livro negro do Padre Dinis (1855), de Camilo Castelo Branco (1825-1890); assim como também, embora já algo afastado do perfil desse pequeno grupo, aquele que é considerado, com maior ou menor aceitação, o primeiro romance policial português:

O MISTÉRIO DA ESTRADA DE SINTRA,
 Eça de Queiroz (Póvoa de Varzim, 25/11/1845 – Paris, 16/08/1900)
Ramalho Ortigão (Porto, 24/11/1836 – Lisboa, 27/09/1915)

          Foi publicado, em folhetins, no jornal, Diário de Notícias, de Lisboa, entre 24 de Julho e 27 de Setembro de 1870, surgindo, assim, vinte e nove anos depois de, nos Estados Unidos, precisamente em Abril de 1841, ter sido publicado aquele que marcou o início da literatura policial moderna, o já referido, Os crimes da rua Morgue.


   Ainda hoje há quem considere a literatura policial um género literário de segunda ordem. É um preconceito de quem insiste em esquecer que a qualidade de uma obra não depende do tema abordado, mas do rigor, da substância, da originalidade e qualidade com que o mesmo é apresentado, desenvolvido, aprofundado, e até enquadrado no contexto social. Mas reconheça-se que já são poucos os que se esquivam e se envergonham de ser apanhados a ler, ou apenas a ter na mão, um romance policial, e que quando o são se desdobram em justificações ridículas, pueris.
   Já Siegfried Kracauer, no seu tratado filosófico, Der Detektiv-Roman, composto entre 1922 e 1925, escrevia: “O romance policial que a maior parte das pessoas cultas conhecem como obra extra literária sem valor, levando uma existência confortável nas bibliotecas de empréstimo, conquistou progressivamente uma posição à qual dificilmente se pode contestar o seu grau e a sua importância” (2).
  Também Jorge Luís Borges, em 1978, numa sua conferência sobre o conto policial, interrogava: “Que poderíamos dizer como apologia do género policial?” e respondia: “Há uma muito evidente e acertada: a nossa literatura tende para o caótico. Tende-se para o verso livre porque é mais fácil que o verso regular, mas o contrário é que é verdade. Tende-se a suprimir personagens e argumentos; tudo é muito vago.Nesta nossa  época  tão  caótica,  algo  existe  que,  com  humildade,  conservou  as virtude  clássicas: o conto policial. Isto porque não se compreende um conto policial sem princípio, meio e fim. Têm-nos escrito escritores de segunda ordem, mas alguns saíram da pena de escritores excelentes, como Dickens, Stevenson e, sobretudo, Wilkie Collins. Eu diria, em defesa da novela policial, que ela não precisa que a defendam; lida presentemente com um certo desdém, vem salvando a ordem numa época de desordem. É uma coisa meritória e que lhe devemos agradecer” (3). 
    E Ernest Mandel, na introdução à sua história social do romance policial, Delightful Murder, de 1984, declarava: “Em primeiro lugar, devo confessar que gosto de ler romances policiais. Durante muito tempo pensei que eram um simples divertimento, uma evasão: quando lemos um não pensamos em mais nada e, assim que acabamos de o ler, deixamos de pensar nele. Mas este livrinho é em si próprio a prova de que essa maneira de ver é pelo menos incompleta” (4).
               Assim como o nosso Fernando Pessoa, num texto de reflexão pessoal, confessava: "Um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda restam ao que ainda resta de intelectual na humanidade é a leitura de romances policiais. Entre o número áureo e reduzido das horas felizes que a Vida deixa que eu passe, conto por do melhor ano aqueles em que a leitura de Conan Doyle ou de Arthur Morrison me pega na consciência ao colo…" (5)

                                                                  NOTAS

(1) – Edgar Allan Pöe, Os crimes da rua Morgue, em Histórias de Mistério e Terror, Livraria Civilização, Porto, 1966.
(2) – Siegfried Kracauer, Le Roman Policier, un traité philosophique, Payot, Paris, 1981. 
(3) – Jorge Luís Borges, Borges, Oral, em Obras Completas, 4º volume, Círculo de Leitores, Lisboa, 1999.
(4) – Ernest Mandel, Cadáveres Esquisitos (uma história social do romance policial), Edições Cotovia, Lisboa, 1993.
(5) – Fernando Pessoa, Quaresma, decifrador, Assírio & Alvim, Obras de Fernando Pessdoa / 23, Lisboa, 2008.





 

22 de agosto de 2017

BIBLIOTECA (4): o Corredor

Suficientemente largo e comprido para merecer as seis prateleiras que lhe ofereci e que eu próprio instalei. Na primeira, a contar de cima, apenas alguns utensílios decorativos, o que se lhes queira chamar: um jarro e uma jarra, um pote, uma caneca, um prato, uma taça. Nas outras cinco na mais nada menos do que a Literatura de ficção e de não-ficção, dos países europeus, à excepção da britânica e da russa. A saber, mas não todos porque são muitos:
Alemanha:  Bertolt Brecht  (A boa alma de Sé-Chuão),  Thomas Mann (A montanha mágica)
Áustria:  Arthur Schnitzler  (História de um sonho),
Bélgica:  George Simenon  (O homem que via passar os combóios)
Bulgária:  Tzvetan Todorov  (Poética da prosa)
Chéquia:  Franz Kafka (O processo),  Milan Kundera  (A insustentável leveza do ser)
Dinamarca:  Peter Hoeg  (A senhora Smilla e a sua especial percepção da neve)
Espanha:  Cervantes  (D. Quixote de La Mancha),  Garcia Lorca (A casa de Bernarda Alba)
França:  Aragon (A semana santa), Camus (estrangeiro), Gustave Flaubert (Madame Bovary)
Grécia:  Homero (Ilíada), Homero (Odisseia)
Holanda:  Harry Mulisch (O assalto)
Hungria.  Georg Lukács ( Significado presente do realismo)
Irlanda:  James Joyce (Ulisses)
Itália: Dante (A divina comédia), Umberto Eco (O nome da rosa), Lampedusa (O Leopardo)
Noruega:  Josteinr Gaarder (O mundo de Sofia)
Polónia:  Wanda Wassilewska  (Arco-Íris)
Suécia: Larsson (Os homens que odeiam as mulheres), Mankell (O assassino sem rosto)

Antes de avançar nesta viagem guiada, dois episódios que de todo ainda não esqueci.
Há alguns anos, muito antes do 25 de Abril, veio a Portugal, em digressão, uma companhia de teatro brasileira de Maria Della Costa e Sandro Polónio . Instalou-se num dos teatros do Parque Mayer, o Capitólio, e, do seu reportório, escolheu para estreia a peça de Bertolt Brecht,  A boa alma de Sé-Chuão. Logo resolvemos ir à estreia convictos que a peça não estaria muito tempo no cartaz. Para  o regime salazarista, Brecht não era flor que se cheirasse. Não imaginávamos, no entanto, o que aconteceu.O ambiente era de expectativa e de algum nervosismo, pensava-se que podia haver agentes da PIDE entre os espectadores. E havia!
Já com o espectáculo a decorrer, a sala, o palco, os bastidores foram invadidos pela GNR e pela polícia política. Houve gritos, desmaios, algumas detenções, os espectadores foram para o olho da
rua, e os artistas bem devem ter começado a pensar em fazer as malas. Era assim no tempo do fascismo.

Anos depois, em 1968, veio a Portugal, a convite da F. C. Gulbenkian, para fecho do seu Festival de Música, a companhia de bailado de Maurice Béjart, para apresentar, no Coliseu, o seu Romeu e Julieta. Fomos à estreia. Casa esgotada, presença do almirante Américo Tomás, e de Azeredo Perdigão, espectáculo deslumbrante, arrebatador, inesquecível. Mas no fim, Maurice Béjart veio à boca de cena com uma notícia da última hora, chocante, dramática, aterradora, o assassinato do presidente Kennedy dos EUA. Maurice Béjart foi muito assertivo, verberando as forças fascistas reaccionárias, anti-democráticas. Ambiente escaldante, emotivo e desinibido, pela força do espectáculo  e pela revoltante notícia. Logo se ouviram gritos e palavras de ordem, pela democracia contra a reacção. E lá saímos todos um pouco em turbilhão, mas o burburinho maior foi já na rua com  a chegada, em força, da polícia.
O final foi triste e vergonhoso. Béjart e a sua companhia de bailado postos nessa noite na fronteira,
expulsos por ordem de Salazar.

21 de agosto de 2017

ESCRITOS (4)

Teatro Esquecido
Dossiê volumoso que me deu bastante trabalho, mas, como como se costuma proverbiar, quem corre por gosto não cansa. A apresentação que o inicia explica tudo.


APRESENTAÇÃO

          Irreflectidamente, classifiquei-o de teatro de cordel. Um acervo de cerca de cinco dezenas de folhetos quase todos datando da segunda metade do século XIX, do espólio herdado do meu avô. Exemplares que pelo seu mau aspecto e precário estado de conservação, bem pareciam ter estado ao ar pendurados num cordel. Guardados e esquecidos, não me recordava de alguma vez os ter visto, o que não aconteceria se eles tivessem sido, não enfiados numa gaveta da secretária, mas arrumados no armário envidraçado das cortinas verdes, poiso dos seus livros, que eu, ainda infante, em segredo ilusório, receando a proibição que, aliás, nunca veio, cedo comecei a visitar. Livros, todos eles de autores portugueses, assim me fui, gradualmente, apercebendo, curiosamente mais de poesia que de teatro, mas onde predominava a prosa, e dela a de Camilo. Essa prosa que bem cedo me atraiu e ainda hoje me seduz. No entanto, as "jóias da coroa", e era para elas que os meus olhos se sentiam atraídos, sempre que abria o armário, eram dois exemplares de Os Lusíadas, dois grossos e belos volumes, um mais alto mas menos bojudo, encadernados em coiro e com muitos dourados, letras e desenhos. Dois livros magníficos, ambos editados pela Imprensa Nacional, o primeiro de 1869, com ensaio biográfico do visconde de Juromenha, e o segundo de 1931, prefaciado por Carolina Michaelis de Vasconcelos e revisto e anotado por José Maria Rodrigues. Na altura não lhes tocava, só mais tarde, mas sempre com a reverência e o prazer com que ainda agora os manuseio.
          Mas, voltando ao assunto, aos herdados folhetos teatrais. Encontrei-os, mas faltando-me a pachorra para os ler, sequer para um folhear minimamente atento, indiferente às autorias, tive, mesmo assim, um rebate de sentimental respeito, e, depois de os desempoeirar e limpar, arrumei-os em três caixas de cartão, encomendadas para o efeito, em cuja lombada mandei gravar os dizeres: Teatro de Cordel.
          Esqueci-os? Sim e não, pois, esquecê-los de todo, não o consegui. Não mo permitiu o cartaz que os acompanhava, ao qual não resisti, mandando-o emoldurar e expondo-o em lugar bem à vista. Um cartaz que se apresentava, com algum requinte gráfico, como sendo do Grupo Dramático César Marques, e que anunciava uma récita para o dia 20 de Março de 1898, um domingo. O programa era extenso. Abria com a declamação de uma poesia, “O Estudante Alsaciano”, a que se seguiam três peças de um acto, Uma Experiência, O Canalha e Os Trinta Botões, e dois entreactos, a cançoneta, Zás, Traz, Paz, e o monólogo, Os Três Soldados. Sobre os autores dos textos nada constava, embora eu viesse a descobrir que o da peça Os Trinta Botões se chamava Eduardo Garrido. Do elenco faziam parte os meus avós paternos, sendo o meu avô, porque não dizê-lo, a estrela da companhia. Era ele que declamava a poesia e protagonizava as três peças, ou seja, começava por poetizar, depois compunha o marinheiro José Borrasca, da primeira peça, a seguir encarnava Carlos, o canalha, e terminava vestindo a pele de um brasileiro, o proprietário Baía. A minha avó, modestamente, era apenas a Rosa, a criada do tal Baía. Eram ambos muito novos, o meu avô tinha 19 anos e a minha avó 16, e estavam casadinhos de fresco. Cerca de oito anos depois desse dia tão especial, tiveram o seu terceiro filho, meu pai.
          Não me vou embrenhar em explicações justificativas quanto ao meu actual e inesperado interesse, tantos anos passados, por essas tão mal tratadas e esquecidas brochuras. Aconteceu! E muito cedo me apercebi como fora precipitado ao classificá-las como o fiz. Na verdade, era mais do que duvidoso que pudessem ser consideradas de teatro de cordel. Todas elas, pelo menos! Debruçando-me sobre o assunto, recorrendo, como é devido, aos especialistas, aos estudiosos que sobre ele se têm pronunciado, aprendi que o teatro de cordel não é um género dramático, mas antes uma designação bibliográfica que se aplica a todo um acervo de peças teatrais, originais, imitadas ou traduzidas, sérias ou cómicas, românticas, históricas, religiosas…, de grande aceitação popular pelo seu primarismo, que inundou o panorama teatral português no século XVIII e primeiras décadas do século XIX, cuja designação lhe advém da pobreza gráfica dos folhetos, impressos em fólio, e postos à venda na rua pendurados em barbantes pregados nas paredes e nas portas. Ao invés, o teatro dos folhetos que herdei, se revela, aqui e ali, em muitas das peças, mas não todas, traços de vulgaridade e de fraco nível literário, pertence quase todo ao segundo semestre do século XIX, apenas três ou quatro ao primeiro decénio de século XX, o seu registo gráfico é razoável, e insere-se ou é influenciado pelos movimentos literários então em vigor, o romântico, o neo-romântico e o naturalista. Além do mais, todas as peças têm o autor bem identificado, o que raramente acontece nas chamadas de cordel.
          São, então, quarenta e oito peças, para além de cinco almanaques e um catálogo que as acompanhavam, que resolvi dar à estampa, chamando ao volume a que me abalancei e as acolhe, não teatro de cordel, mas, sim, teatro esquecido, em vez de teatro ignorado, primeira opção pensada, dado que algumas das peças envolvidas, embora não todas, e respectivos autores, estão referenciados nos livros da especialidade e, também, por que, no seu tempo, todas elas, mesmo as de mais fraca qualidade, além de editadas, foram ou terão sido representadas.       
          Do espólio, apresento, então, uma relação completa das peças, vinte e sete de um só acto, oito de dois actos, quatro de três actos, e duas de cinco actos, além de sete entremezes  – transcrevendo na íntegra os entremezes, e excertos das restantes, e não esquecendo dados sobre os almanaques e o catálogo, breves notas sobre os autores, e, também, sobre os principais teatros então existentes.

BIBLIOTECA (3): o Quarto Independente

Ele é mesmo um quarto independente pois tem uma porta privada que dá para a escada e, portanto, para a rua. Além disso em vez de janela tem portas envidraçadas que dão para uma varanda, a única da frontaria do prédio.
É neste quarto que repousam as literaturas de Direito, de História, de Política e de Religião.
São pouco mais de meia dúzia os livros de direito e versam, principalmente, sobre ciência política e direito constitucional, de autores como, Jorge Miranda e Marcelo Rebelo e Sousa.
Os de religião, cerca de uma vintena, têm a encabeçá-los os Sermões e a História do Futuro do Padre António Vieira.
O grosso da coluna é formado pelos livros de história e de política, da história e da política portuguesas, da história e da política universais. Dou exemplos:
- Os factores democráticos na formação de Portugal, de Jaime Cortesão  
- A Expansão Quatrocentista Portuguesa, Vitorino Magalhães Godinho
- Dicionário da História de Portugal, Joel Serrão
- Soares, ditadura e revolução, Maria João Avilez
- Ensaio geral, passado e futuro do 25 de Abril, Francisco Louçã e Fernando Rosas
- Fascismo no quotidiano, Victor de Sá
- Introdução à História, Marc Bloch
- Os grandes sistemas políticos, Maurice Duverger
- O século XX esquecido, Tony Judt
- O eterno retorno do fascismo, Rob Riemen
- Ascensão e queda do IIIº Reich, William L. Shirer  
- O processo histórico, Juan Clemente Zamora




20 de agosto de 2017

ESCRITOS (3)

O Fantástico, a Ficção Científica e Géneros Afins na Novelística Portuguesa 

É o meu terceiro livro e foi editado em 2011. Uma vez mais, uma pequena e exclusiva edição de autor, destinada não para venda, mas para oferta a familiares e amigos.
Compõe-se de uma cronologia das obras literárias dos géneros fantástico, ficção científica e afins publicadas em Portugal durante os séculos XIX e XX e os primeiros 10 anos do século XXI, e uma antologia de textos retirados de tais obras. Transcrevo a introdução:



PRÓLOGO

          O presente trabalho consiste numa relação cronológica, seguida por  uma antologia seleccionada, de textos de ficção que pelo seu conteúdo e/ou estrutura são, ou podem ser, considerados dos géneros fantástico, de ficção científica, ou afins a estes, como sejam o estranho e o maravilhoso, duas vertentes do fantástico, o negro, que balança entre o horror e o terror, o sobrenatural, companheiro dilecto de todos eles, ainda  o surrealismo e até o realismo fantástico.
          O critério de escolha dos textos não foi rígido, pelo que é admissível que haja alguns que não se enquadrem, ou rigorosamente não pertençam a esse vasto universo literário, embora sempre se tenha tentado o apoio, para todos eles, de uma referência credível. Por outro lado, a busca não foi tão exaustiva que se possa pôr de parte a hipótese, muito provável, de haver títulos injustamente ausentes; de certo que os haverá. Quanto aos comentários, que não cobrem todos os textos, até por não ter havido acesso directo a alguns deles, são essencialmente informativos, tendo-se evitado, naturalmente, juízos de valor.  
          O negro na literatura,  embora desde sempre utilizado, mas de maneira avulsa, só surgiu na Europa como género literário em meados do século XVIII, quando se torna um objecto insistente da criação literária nos seus vários aspectos de horror e de terror (crime, roubo, rapto, loucura, suicídio, tortura…).  Primeiramente, em Inglaterra, onde toma o nome de gótico dada a tendência em contextualizá-lo em cenários da Idade Média, apontando-se o romance, The Castle of Otranto, de Horace Walpole, como iniciador do género. Mas quase simultaneamente apareceu e prosperou na Alemanha – mais brutal e terrífico –, e em França, preferencialmente dirigido para a tragédia social.
O fantástico, a intrusão do aparentemente inexplicável na vida real, contemporâneo do negro, se há traços dele no século XVII, é também, no entanto, no século XVIII que desabrochou e se desenvolveu, no rasto do gótico, jogando no sobrenatural, muito ligado ao romantismo e hostil ao racionalismo. Contudo foi durante todo o século XIX, e primeiros anos do século XX, que ambos os géneros, negro e fantástico, verdadeiramente se impuseram, muito devido à abundância, mais do que à qualidade, das obras produzidas.
 A ficção científica trouxe para a literatura as viagens espaciais e o contacto com alienígenas: as suas duas imagens de marca. Isso verificou-se ainda no século XIX, por intermédio daqueles que são considerados os seus pais: o inglês H.G.Wells, o francês Júlio Verne e o americano Edgar Allan Poe. Mas a expansão e enorme popularidade do género deu-se já no século XX, nos Estados Unidos da América, com muita força, e na Europa, mas em menor grau, principalmente em França, em Inglaterra e na antiga União Soviética. A expressão ficção científica, embora contestada, impôs-se de maneira incontornável, e abrange hoje variantes cujas ficções pouco ou nada têm de científicas.  
          Portugal, país marginal, sempre longe da actualidade europeia, só tomou conhecimento de tais movimentos literários muitos anos depois do seu início, em grande parte através de más traduções, daí resultando que só a partir de meados do século XIX a novelística portuguesa nos oferece textos mais ou menos influenciados pelos géneros literários em questão.          As excepções, que sempre se encontram,  são duas obras de inegável qualidade que não podiam deixar de ser consideradas: História do Futuro, do Padre António Vieira, e  Obras do Diabinho da Mão Furada, supostamente, de António José da Silva, o Judeu.
          A narrativa sobre o Diabinho, também designado por Fradinho, tenha sido ou não o Judeu o seu autor, é um texto do século XVIII, assim está provado, mas que só foi divulgado no século seguinte, em 1861, o que permitiu repescá-lo, dada a sua temática e estrutura.  Quanto à História do Futuro, que começou a ser escrita em 1649, e só publicada, postumamente,  no século XVIII, uma vez em 1718 e outra em 1755, mas várias no século XIX, considerou-se abusivo introduzir o discurso profético do Padre António Vieira no mundo literário desta cronologia.
.         Mesmo no século XX, do universo dos nossos escritores, raros foram os que se dedicaram preferencialmente a tais géneros literários,  embora,  uma boa parte deles, incluindo alguns dos mais prestigiados, tenha revelado grande atracção por eles. É o caso exemplar do nosso Nobel da Literatura, José Saramago, cuja obra ficcional, toda ou quase toda, possui uma componente modal de índole fantástica.
          O século XXI vai ainda no primeiro decénio, mas dos anos já decorridos, louve-se  a edição de mais de meia centena de títulos originais, dois deles de José Saramago, que de novo marca presença nesta cronologia, a confirmação e a estreia promissora de alguns novos autores, e um número de leitores, principalmente jovens, cada vez mais interessados, que parece aumentar.




         

19 de agosto de 2017

BIBLIOTECA (1): a Sala

Volto ao local do crime, à biblioteca da sala, para relatar um episódio do qual fui um protagonista pouco feliz. Talvez por isso, mas inconscientemente, não o recorde quando era natural recordá-lo.   Estarei a exagerar? Talvez! É que não aconteceu nada de grave e o acontecido, quando contado até faz sorrir. Vamos lá!
No rés-do-chão, do prédio ao lado do meu, residia um sujeito, mais ou menos da minha idade, de ar sujo e desleixado, parecendo por vezes estar bebido ou drogado, hóspede de um casal de aspecto ainda mais desagradável, mais ele do que ela, pais de uma pobre criança, um rapaz, deficiente. As desavenças, as zangas, as gritarias, do casal, em casa, janelas escancaradas, ou mesmo na rua, devido à bebida ou à droga, eram constantes e bastante desagradáveis. As relações do hóspede e do casal, eram, por sua vez, pouco claras.
Escravo dos horários, como sempre fui e ainda sou, saí um dia de casa com a família, para ir já não sei a onde, tratar já não sei de quê, com a sensação de já estar atrasado. Inesperadamente, o tal sujeito mal encarado aparece-me à frente, balbuciante, braços estendidos, na mão um objecto qualquer. Apressado, impaciente, afasto-o sem meiguice: Não me chateie! Entrámos no carro e ao abrir a janela 
o sujeito reaparece, atira com o que tinha na mão e afasta-se. Faço menção de sair, mas a minha mulher
agarra-me diz: - É um livro! E os meus filhos gritam: - É um livro! Seguro e olho para o livro. O meu filho diz, baixo: - É um homem com a cabeça nas mãos. Continuo a olhar. O título do livro era, Textos Malditos, e o autor chamava-se Luiz Pacheco. O sujeito desaparecera, e nunca mais o encontrei. Diz a minha mulher, sem se rir: - Ele engraçava contigo e foi uma maneira de se despedir.
O livro cá está, e bem encadernado, e com ele mais quatro. Luiz Pacheco era, foi, um ESCRITOR.