19 de agosto de 2017

BIBLIOTECA (2): o Quarto de Vestir

O Quarto de Vestir é uma das duas divisões que ladeiam a Sala, a que está à esquerda. Com ligação ao quarto de dormir, que era dos meus avós e agora é o nosso, era para vestir, e , naturalmente, para guardar fatos e vestidos, que era utilizado. O nome manteve-se, a utilização não, exactamente, e a ligação entre os dois quartos foi interrompida por um reposteiro, de um lado, e uma estante do outro.
É no Quarto de Vestir que está a totalidade da Literatura Britânica de ficção e uma parte da Literatura Norte-Americana, a do género chamado, em muitos casos erradamente, policial. E lá se encontra  também, a Literatura sobre Cinema, bem acompanhada, a propósito, por cerca de quinhentos DVDs de filmes e séries.

Começo pelo fim, pela recheada videoteca, onde se encontram os «filmes da minha vida», os que levaria numa viagem à galáxia sem regresso garantido.  À frente, os da minha juventude, os mudos de Chaplin: Luzes da cidade e Tempos modernos, depois, por ordem alfabética dos realizadores, os sonorizados,  da minha maturidade: Morangos silvestres, de Bergman;  O Barba Azul, de Chaplin; Ivan, o Terrível, de Eisenstein;  Amarcord, de Fellini;  Lola Montês, de Max Ophuls;  Andrei Rubliov, de Tarkovski;  O Leopardo, de Visconti;  O mundo a seus pés, de Orson Welles. Dez obras-primas.
 
O primeiro nome a encimar a literatura inglesa é, invariavelmente, William Shakespeare, e ele cá está, no original, com The Complete Works. Mas o inevitável destaque vai para a edição portuguesa duma peça sua, O Rei Lear, traduzida e anotada por Álvaro Cunhal. Uma agradável surpresa, bem demonstrativa de que há mais vida para além da política.
Sherlock Holmes, sendo apenas uma personagem fictícia, embora protagonista de muitas histórias, é um nome que, em popularidade, rivaliza, ou mesmo supera, com o de Shakespeare. Também ele está presente, numa edição, portuguesa, de nove livros, cujo autor, como se sabe ou deve saber, é Conan Doyle. Entre um peso pesado, como Shakespeare, e um peso leve, como Doyle, há muitos mais autores presentes, vou apenas mencionar seis, cada um deles acompanhado de um livro da sua autoria: Jane Austen (Orgulho e Preconceito), Virginia Woolf (Mrs. Dallowway),  Hilary Mantel (Wolf Hall);  e Charles Dickens (Loja de antiguidades), D. H. Lawrence (Filhos e amantes),  Óscar Wilde (O retrato de Dorian Gray).

Faz parte desta parte da Literatura Norte-Americana, toda a bibliografia do escritor Raymond Chandler:  contos , romances. ensaios, cartas, apontamentos, no original e em tradução portuguesa.   Ela foi a indispensável fonte em que me baseei para o livro Chandler & Marlowe .
Raymond Chandler e Dashiell Hammett, que o antecedeu, também lá representado,  foram os verdadeiros criadores do romance policial negro, que saiu à rua, deixando para trás o romance policial tradicional, de salão, envolto em mistério. Dos sucessores dos dois escritores, escolho, entre muitos outros, e também acompanhados com um livro da sua autoria: Patrícia Highsmith (O talentoso mr. Ripley);  Dennis Lehane (Mystic River);  Horace McCoy (O pão da mentira);  Elmore Leonard (Um bom argumento);  Scott Turow (Presumível inocente).




 

17 de agosto de 2017

ESCRITOS (2)

Contos do (meu) entardecer
É o meu segundo livro, editado em 2006, numa exclusiva edição de autor, de umas poucas dezenas de exemplares, não para venda, mas como o anterior, para oferta a familiares e amigos. Compõe-se de sete contos de raiz autobiográfica, á excepção do último, colocado em apêndice, a saber:  Despertar, O amolador e a varinaO hinoAdeus, amigo!Uma manhã da vida deleAté ao fimSinfonia da natureza. E tem um prefácio, que é da Teresa, e não pode ser esquecido.

 Em estilo de prefácio

Quando o meu pai me pediu que escrevesse o prefácio para o seu primeiro livro de contos afoguei-me em duas sensações antagónicas, já não me recordo qual surgiu primeiro, se o receio de o desiludir, se o desconforto por ter de ler novamente aqueles contos que me revelavam as fragilidades e a grandeza que eu já sabia fazerem parte do meu pai enquanto ser humano sensível. Não me podia permitir entristecê-lo, para isso já bastavam as perdas e as ausências tão evidentes nos contos e que eu já sabia estarem-lhe agarradas à pele desde criança. Nem queria que ele notasse o meu embaraço, não fosse o lema das duas famílias Simões e Loureiro unidas em comunhão de amor "Reage! Devemos sempre reagir aos ventos adversos da vida". Afivelei o meu melhor sorriso e deitei mãos à obra, ou melhor lágrimas nas páginas repletas de palavras emocionadas. As suas memórias de infância perderam a lonjura dos anos e colaram-se-me à pele a ponto de me ressentir  eu própria com a sua perda da mãe e do pai. Os meus medos tolheram-me os movimentos e emperraram-me a escrita; nunca o pude admitir com receio de a atrair, mas na verdade também eu não posso pensar nem ao de leve na palavra morte. Os contos do "seu" entardecer passaram a assemelhar-se aos contos do meu amadurecer e obrigaram-me a confrontar-me com os meus próprios medos. E se um dos meus morre, será que vou suportar a sensação de vazio?
      Nos contos estava resumida a vida do meu pai que se uniu à minha passando a ser uma única. Recordações de um passado perdido que nos ficaram gravadas na carne e na mente, que foram registadas num filme perdido no tempo e que, de repente, faz tanta falta. Morreu "um de nós" e nem sequer temos imagens do que fomos, talvez nos bastem as imagens fugazes que nos atravessam a mente quando fechamos os olhos. Talvez tudo na vida se resuma à capacidade de conseguir um "match point" que faça a bola cair para o campo certo.

Para uma ilusória 2ª edição, escrevi mais três contos: E foi assim...As jóias da coroaÀ letra.


BIBLIOTECA (1): a Sala

É a primeira divisão da casa, logo à direita da porta de entrada. Chamamos-lhe: a Sala. E é realmente uma sala, com dois cadeirões e uma cadeira, duas escrivaninhas, um computador e uma impressora. É lá que se encontra a Literatura Portuguesa de ficção e a de não-ficção com ela relacionada. A prosa numa estante, a poesia e o teatro em três prateleiras, os livros arrumados por ordem alfabética do último nome do respectivo autor.
A representação mais avultada é a dos romancistas, de Ruben A a Zambujal, com destaque para Camilo, Eça, e Saramago.
Porque os tive à disposição, sem restrições, li Camilo e Eça muito cedo, cedo de mais, para uma devida aceitação e compreensão. Se o romantismo avassalador e trágico de Camilo não me afugentou, a sua prosa desafiava-me e prendia-me, eu queria dominá-la, já o inesperado realismo de Eça, o adultério dos primos, os pecados do padre, o incesto dos irmãos, a escandalosa relíquia, inquietou-me, perturbou-me, indignou-me. Eu era um jovem inocente. Bons tempos.                                                     E, para que conste, claro que os reli, mas já mais sabido, já mais adulto, já mais permissivo.
Tenho quase toda a obra do nosso Nobel, e muito sobre o que dela se tem escrito. Conheci Saramago um pouco antes do 25 de Abril. Ocasionalmente, jogámos ténis, uma ou duas vezes, no Estádio Nacional, onde íamos aos sábados de manhã. Eu era assíduo, ele não. Depois dessa data, encontrámo-nos algumas vezes, aqui e ali, pois estávamos ambos do mesmo lado da barricada. A minha admiração pela sua obra começou cedo, com Manual de Pintura e Caligrafia, de 1976, e não mais esmoreceu, pelo contrário. A última vez que nos cruzámos e falámos foi no teatro S. Carlos, no dia da estreia da ópera baseada no seu, Don Giovanni ou o Dissoluto absolvido.
A poesia e o teatro passaram-me um pouco ao lado, mas não os ignorei. Luís de Camões e Gil Vicente estão lá, e ambos têm companhia de apreço. A propósito do primeiro, e não só, alerto para o livro, Camões e outros contemporâneos, de Helder Macedo, saído em Fevereiro deste ano, e recordo, do mesmo autor, Camões e a viagem iniciática,de 2013. 
Enfim, não os contei um a um, mas são ao todo cerca de meio milhar, e alguns, pela sua idade avançada, superior à minha, a merecer registo: Sons que passam (1868), O mensageiro de Fez (1899)  e D. Jayme (1921), de Thomaz Ribeiro; Paquita (1873), de Bulhão Pato; Os Sonetos (1886), de Antero de Quental; Poesias (1896), de João de Deus; A ceia dos Cardeais (1902) e Rosas de todo o ano (1907), de Júlio Diniz; Camões (1904), de Almeida Garrett; A filha do Arcediago (1905), de Camilo Castelo Branco; A Relíquia (1909) e Notas Contemporâneas (1909), de Eça de Queiroz; Os simples (1920) e A morte de D. João (1924) de Guerra Junqueiro; Os Pescadores (1924) e As Ilhas desconhecidas (1924), de Raul Brandão;  Sob a cinza do tédio (1925), de Fidelino de Figueiredo.

 

15 de agosto de 2017

ESCRITOS (1)

Chandler & Marlowe
Foi o meu primeiro livro. Uma pequena e exclusiva edição de autor, de umas dezenas de exemplares, não para venda, apenas para oferecer a familiares e amigos. Um texto que se debruça sobre a vida e obra do escritor americano Raymond Chandler e, simultaneamente, da vida e investigações do detective Philip Marlowe, protagonista de todos os romances do escritor.
Para uma improvável 2ª edição, preparei um dossiê com o texto revisto, aumentado de um capítulo, de uma introdução, que substitui da nota prévia da 1ª edição, e que seguidamente vou transcrever, e do ensaio, A arte simples do assassínio.

Introdução
Eis uma segunda edição, revista, alterada e aumentada, de um pequeno livro por mim editado, em 2005, de homenagem ao escritor Raymond Chandler, e para assinalar e celebrar o facto, esquecido ou desconhecido por quase todos, de ter ocorrido nesse ano, o centenário do nascimento do detective Philip Marlowe, herói e protagonista de todos os seus romances.

Raymond Chandler escreveu e ficcionou, em fins de 1938, a primeira investigação de Philip Marlowe, a que deu o nome de The Big Sleep. Nela, logo de início, o detective, falando de si a pedido do seu cliente, o general Sternwood, revela, para além de outros dados pessoais, ter 33 anos. Daí o poder considerar-se, assim o entendi, que Philip Marlowe teria nascido durante o ano de 1905.

«Mas é bom lembrar que Philip Marlowe não é uma pessoa real. Ele é uma pessoa imaginária», desabafou Raymond Chandler, em carta de 19 de Outubro de 1951, respondendo ao sr. Inglis, um leitor que tanto o questionava sobre o detective.
Não ignorando o esclarecimento, reconheçamos que o mesmo pode ter sido dito por despeito, não querendo o escritor ser ultrapassado, em importância e prestígio por alguém que apenas devia ser reconhecido como uma criação sua, ou, não por isso, mas apenas por amizade e lealdade para com o parceiro, cioso da sua privacidade.
Naturalmente, é me mais agradável admitir a segunda hipótese do que a primeira, embora esta possa ser mais plausível. Não é de esquecer que em 1941, já depois de The Big Sleep e de Farewell, My Lovely, e antes de High Window, Raymond Chandler tentou fazer esquecer Philip Marlowe, ao entregar para publicação o conto No Crime in the Mountains, dando ao detective-narrador o nome de John Evans, embora ele fosse Philip Marlowe em tudo o mais. Aliás, ainda na mesma carta, em que nega a existência real de Philip Marlowe, Raymond Chandler como que se contradiz ao declarar indignado, linhas à frente: «Repudio a sua sugestão que Philip Marlowe despreza a fraqueza física dos outros. Não sei onde foi buscar tal ideia, e tenho a certeza que não é verdadeira. Estou também um pouco farto das insinuações segundo as quais ele está sempre enfrascado em uísque, A única justificação que vejo para isso é quando lhe apetece uma bebida ele admite o desejo abertamente e não hesita em confirmá-lo.»
Seja como for, o que pretendo dizer é que nada me impedindo de aceitar que Philip Marlowe possa ter sido uma pessoa real, que tenha existido, e não apenas uma criatura imaginada e criada pelo escritor, querendo acreditar nessa possibilidade, sobre ele escrevi, nos dois capítulos que no livro lhe são dedicados, ressalvando que tudo o que revelo, embora suposto, é baseado, tem suporte, nos contos, romances, artigos e cartas do escritor.

14 de agosto de 2017

Não basta saber escrever para se ser um ESCRITOR

Assim sendo, como na verdade é, bem cedo me apercebi que nunca viria a ser um ESCRITOR, com letras maiúsculas, naturalmente, por muito que gostasse de escrever. Ao desejo sempre faltou, talento, imaginação, persistência, convicção, e também a indispensável desinibição. Em conclusão, ao reconhecer, com mágoa mas sem desespero, não poder vir a ser o escritor idealizado, desisti de o ser  mas não desisti de escrever.
Assim, ao esclarecer, pois, de maneira mais ou menos entendível e aceitável, que não me considero, nem um leitor de muito saber,  nem um verdadeiro escritor, sinto-me mais à vontade, sem falsa modéstia, para revelar para já, e no imediato, os motivos do meu regresso: falar da minha cuidada biblioteca, falar dos meus afeiçoados escritos. Ou seja, arejá-los: desencafuando-a, a ela, biblioteca. desengavetando-os, a eles, escritos. Adiante.

13 de agosto de 2017

Não basta saber ler para se ser um LEITOR


Fui um leitor compulsivo, já não o sou hoje. Tenho vindo a perder poder de concentração, o que me arrasta para o divagar, para as recordações, para o sonhar. A idade não perdoa.
Sim, já fui um leitor compulsivo, o que não significa que tenha sido um leitor com letra maiúscula. Li muito, é certo, mas penso que perdi talvez demasiado tempo com leituras menores, ainda que aliciantes. Receio ter deixado para trás muitas de maior profundidade e interesse, ou de não lhes ter dado atenção mais apurada. Sinto-o!
Mas, abrenúncio, não desisti, embora, das actuais leituras, já não haja muitas que me atraiam, e,  continuo a gostar de livros, de os ter, mesmo que já os tenha lido ou não. Aliás, reconheço com algum pudor, começa a ser-me mais fácil, mais apetecível, manusear um livro do que enfronhar-me nele. Sopesá-lo, medi-lo, acariciá-lo, apreciar-lhe a cor, decifrar-lhe o desenho da capa, murmurar-lhe o nome, folheá-lo, percorrer o índice com um dedo lendo os capítulos, e dar uma vista de olhos aos dizeres elogiosos da contra capa. Sendo quase certo que sendo ele já um dos da casa, veterano, amigo, meu, já lido talvez há muito, e muitas vezes apreciado, tento lembrá-lo, avaliá-lo, descobrir se o devo reler, não vá ele, por inesperados atalhos, recordar-me do passado, o muito que prefiro esquecer, ou se, pelo contrário, é um dos que ainda me conseguem aquecer a alma.
Dito o que disse, entendível ou não, responsabilidade minha, é meu fito final apresentar aqui, e dela falar, a biblioteca que fui erguendo, a biblioteca do leitor que fui, a minha biblioteca.


















12 de agosto de 2017

O REGRESSO

Olá! Sou o Manojas e este é o meu BLOG. Desde Abril de 2013 que aqui não vinha, já nem sei bem porquê, nem vou preocupar-me em recordá-lo, ao porquê ou porquês. Simplesmente, voltei-lhe as costas e esqueci-me dele, e, agora, simplesmente, lembrei-me dele e voltei. Ponto final.
Para já não tenho intenções de opinar nem sobre os fogos (Pedrogão, Siresp, etc)  nem sobre o futebol,  (Benfica, Sporting, Porto, etc), dois temas que a nossa TV privilegia, exaustivamente, nem também sobre política nacional, (eleições autárquicas, greves, etc) ou internacional (Trump, Coreia do Norte, Venezuela, etc). Estou bem consciente da importância de todos estes assuntos, da gravidade de alguns deles, mas já há tantos comentadores, e alguns bem podiam estar calados, que, para já, como digo, não me vou juntar a eles. Aliás, sei que não lhes faço falta alguma.
Para já, desculpe-se-me a repetição do dito, falarei de mim e das minhas coisas. Talvez logo, talvez amanhã. Até . . .